domingo, 1 de julho de 2007

"Schopenhauer" de Thomas Mann

NOSSA alegria diante dum sistema metafisico, nossa satisfação em
presença duma construção do pensamento, em que a organização espiritual do
mundo se mostra num conjunto lógico, coerente a harmônico, sempre
dependem eminentemente da estética; têm a mesma origem que o prazer, que
a alta satisfação, sempre serena afinal, que a atividade artística nos
proporciona quando cria a ordem e a forma a nos permite abranger com a vista
o caos da vida, dando-lhe transparência.
A verdade e a beleza devem ser postas em relação; tomadas em si
mesmas, sem o apoio que mútuamente se prestam, são valores mui instáveis.
A beleza que não se fundasse na verdade, que não pudesse apelar para ela, que
não nascesse dela a não vivesse graças a ela, seria pura quimera - e "que é a
verdade"? Tirados dum mundo de fenômenos, duma visão do mundo
submetida a múltiplas condições, nossos conceitos, como o discerne e o
reconhece a filosofia crítica, não são para use transcendente mas só imanente;
esse material de nosso pensamento e, com maior razão, os juízos que nos
permite construir, não são meios adequados para quem quer apreender a
própria essência das coisas e a verdadeira conexão do mundo a da existência.
Mesmo que, por uma experiência intimamente vivida, se determine mais
convencida a mais convincentemente o que está na base dos fenômenos ainda
não se terá trazido à luz a raiz das coisas. Só isto encoraja o espírito humano a
tentar este ensaio, que se lhe impõe a isto o justifica; é a hipótese necessária de
que também o nosso próprio ser, o nosso mais profundo Eu, é um elemento
desse "substractum" do mundo, que aí deve ter raízes e que, por conseguinte,
dele talvez se tirem alguns dados que permitam esclarecer a ligação do mundo
dos fenômenos a da essência verdadeira das coisas.

Um comentário:

Anônimo disse...

http://s10.bitefight.com.pt/c.php?uid=55318